As mudanças regulatórias globais têm impulsionado a crescente disponibilidade e popularidade de produtos de cannabis para uso medicinal (e recreacional). Estima-se que as vendas de produtos à base de canabidiol (CBD) atinjam US$ 16 bilhões até 2025, demonstrando o crescimento exponencial deste mercado.
Esse movimento, entretanto, contrasta com o número limitado de aprovações regulatórias e com a escassez de evidências científicas robustas para a maioria das aplicações psiquiátricas. Assim, os profissionais de saúde enfrentam o desafio de compreender as implicações clínicas da cannabis no tratamento de transtornos mentais.
Cenário Atual dos Canabinóides
- Indicações aprovadas em psiquiatria: nenhuma até o momento.
- Evidências de uso off-label: estudos preliminares e em andamento para:
- Transtornos de ansiedade
- Transtorno do Espectro Autista (TEA)
- TDAH
- Transtornos do humor
- Psicose
- Transtorno do uso de álcool
- Transtornos relacionados a outras substâncias
- Distúrbios do sono
Ansiedade: Evidências Mais Consistentes
Os transtornos de ansiedade constituem a área psiquiátrica com maior número de estudos envolvendo cannabis medicinal.
Uma revisão sistemática de 57 estudos (Roberts et al, 2025) avaliou intervenções com cannabis para Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG), Transtorno de Ansiedade Social (TAS) e Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT):
- TAG: 95% dos 22 estudos apontaram redução dos sintomas e melhora da qualidade de vida.
- TEPT: 88% dos 16 estudos relataram benefícios, incluindo melhora do sono e do bem-estar geral.
- TAS: 4 de 5 estudos mostraram reduções relevantes nos sintomas.
- Entre os 13 estudos de maior qualidade, 70% apresentaram resultados positivos.
Uma meta-análise (Han et al.,2024) avaliou especificamente o CBD em transtornos de ansiedade (316 participantes):
- Efeito significativo (Hedges’ g = -0,92), indicando impacto robusto na redução da ansiedade.
- Uso contínuo parece mais eficaz que doses únicas.
- Evidência de curva dose-resposta em U invertido, com eficácia ótima em torno de 300 mg/dia.
- Perfil de segurança favorável, com baixo risco de interações fatais e potencial menor de abuso em comparação a outras drogas ansiolíticas.
Transtorno do Espectro Autista (TEA)
- Estudos sugerem benefícios da cannabis rica em CBD para epilepsia, agressividade, ansiedade, humor, interação social e sono (Crippa et al., 2022).
- Ensaios clínicos recentes com formulações THC:CBD (20:1 e 10:1) mostraram resultados positivos em comportamentos disruptivos.
- Preocupação central: risco de efeitos adversos do THC no neurodesenvolvimento.
- Recomenda-se priorizar estudos com CBD puro de grau farmacêutico em populações pediátricas.
TDAH
- Participantes com TDAH relatam melhora em hiperatividade, impulsividade e efeitos colaterais da medicação convencional.
- Único RCT disponível: Nabiximol não apresentou diferença significativa para sintomas de TDAH.
- Produtos canabinoides ricos em CBD não produzem deficiências na função executiva, enquanto produtos ricos em THC o fazem.
- Evidência atual: não recomendado o uso de cannabis em TDAH, especialmente preparações ricas em THC.
Transtornos do Humor
- Alta prevalência de uso de cannabis em pacientes com Transtorno Bipolar e Depressão Maior.
- No entanto, há evidências de que o uso da Cannabis é deletério nestes pacientes, com impacto negativo no curso clínico e até redução da espessura cortical em regiões cerebrais frontais, provavelmente pelo efeito do THC.
- Evidências desfavoráveis para produtos ricos em THC; faltam estudos robustos com CBD isolado.
Psicose
- CBD 800–1000 mg demonstrou eficácia comparável à amisulprida, com menos efeitos adversos (Leweke et al., 2012; McGuire et al., 2018).
- No entanto os ensaios clínicos existentes têm amostras modestas e duração limitada.
- Sete ensaios clínicos randomizados estão em andamento para definir melhor o papel do CBD no tratamento da psicose.
- Na psicose o uso do THC é contraindicado, pois pode exacerbar sintomas psicóticos.
- CBD é um “candidato ideal para as fases iniciais da psicose, onde a minimização de efeitos adversos é uma prioridade clínica.
Transtorno do Uso de Álcool (AUD)
- Ensaio ICONIC: dose única de 800 mg de CBD reduziu desejo por álcool após estresse e pistas ambientais.
- Resultados sugerem efeito dose-dependente, associado a menor ativação do Núcleo Accumbens.
Outros Transtornos por Uso de Substâncias
- Estudos com cocaína: não houve diferença significativa entre CBD e placebo.
- Cannabis: doses mais altas de CBD (400–800 mg) reduziram significativamente consumo (medido por biomarcadores e dias de uso).
- Tabaco: 800 mg de CBD reduziu viés atencional para pistas de cigarro e o prazer subjetivo dos estímulos relacionados ao cigarro.
Distúrbios do Sono
- Entre usuários de cannabis medicinal, 65–75% relatam melhora do sono como principal motivo de uso.
- Estudos iniciais indicam:
- CBD: melhora da duração e qualidade do sono.
- THC: redução da latência do início do sono.
- Formulações combinadas (THC, CBN, CBD) com resultados positivos subjetivos.
- São estudos com alto risco de viés, pequenas amostras, desenhos não rigorosamente controlados e uso de voluntários saudáveis em vez de populações clínicas diagnosticadas
- Ensaios recentes
- Wang et al, 2025: Formulação de 300 mg de CBD + terpenos mostrou um “aumento marginal na porcentagem de sono de ondas lentas (SWS) + sono REM” e um aumento de até 48 minutos/noite de SWS + REM durante 4 semanas, sem eventos adversos.
- •Saleska et al., 2024: Estudo com 1793 pacientes com distúrbios do sono, usando CBD, resultou em 56-75% de melhora clínica. O uso crônico de uma dose baixa de CBD mostrou ser seguro e melhorar a qualidade do sono, embora esses efeitos não excedam os de 5 mg de melatonina.
- Canabinol (CBN) e Canabigerol (CBG) e Sono:
- CBN: Como a maconha velha tem fama de provocar mais sono e o THC com o tempo é transformado em CBN, alegações de marketing sugerem este teria propriedades sedativas fortes. Contudo, os “estudos existentes (muitos deles dos anos 70) são limitados e com pequenas amostras. Portanto, “há insuficiente evidência publicada para apoiar alegações relacionadas ao sono.” O estudo “CUPID, de alta qualidade, está em andamento para investigar o CBN no sono.
- CBG: Levantamento entre pacientes (Russo et al., 2022) mostrou que 73% alegaram superioridade da cannabis predominante em CBG para insônia/sono perturbado. No entanto, “não há estudos de boa qualidade com o CBG.”
O Efeito “Entourage” (Comitiva)
- Refere-se à interação entre canabinoides, terpenos e flavonoides, supostamente potencializando efeitos terapêuticos.
– Terpenos: Dão o cheiro característico da maconha, mas também têm propriedades terapêuticas por si mesmos ou como agentes coativadores. Exemplos: Mirceno (anti-inflamatório), Alfa-pineno (melhora a memória), Limoneno (anti-inflamatório)
– Flavonóides (Canaflavinas A, B e C): Demonstraram propriedades terapêuticas promissoras, particularmente como agentes anti-neuroinflamatórios.
- Apesar de popular no marketing (produtos “full spectrum”, “broad spectrum”), faltam evidências clínicas robustas.
- Alguns componentes podem até aumentar riscos (ex.: piora cognitiva, ansiedade, psicose do THC, toxicidade renal do β-mirceno, hepatotoxicidade da pulegona, risco de convulsões com eucaliptol).
- Segundo Cogan (2020): o conceito é, em grande parte, uma narrativa de marketing baseada em evidências preliminares e inconsistentes.
Conflitos de Interesse na Pesquisa
- Estudos canadenses (O’Neill et al., 2023; Grundy et al, 2023) mostraram que até 82% dos artigos sobre cannabis têm autores com conflitos de interesse (consultoria, financiamento).
- Sites de clínicas frequentemente promovem eficácia com base em evidências de baixa qualidade, omitindo riscos relevantes.
Conclusões e Recomendações Clínicas
Pontos de reflexão:
- A Cannabis Medicinal é um mercado bilionário.
- Existe forte pressão de marketing e grande apelo popular.
- Evidências científicas ainda são limitadas e heterogêneas.
- Permanecem dúvidas críticas: eficácia, dose, formulação, tempo de uso, riscos.
Condutas clínicas recomendadas:
- Adotar cautela.
- Evitar uso quando existirem opções mais bem estabelecidas.
- Conhecer áreas com maior potencial (ansiedade, TEA, psicose inicial, sono, abuso de substância).
- Priorizar produtos com menor risco (CBD isolado).
- Atentar-se às interações medicamentosas.
- Realizar acompanhamento clínico próximo.
- Informar pacientes sobre benefícios, riscos e incertezas.

