Agonistas de GLP-1: de medicamentos para perda de peso a possível revolução no tratamento da dependência

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A popularidade dos agonistas do receptor GLP-1 — medicamentos como semaglutida e liraglutida — explodiu nos últimos anos. Conhecidos pelos nomes comerciais Saxenda, Ozempic e Wegovy, tornaram-se um fenômeno cultural, dominando conversas sobre saúde e estética por seu notável efeito de redução de peso.

Mas, paralelamente a essa fama, surgiu um efeito colateral inesperado e potencialmente revolucionário: relatos de que esses medicamentos também diminuem desejos e impulsos — não apenas por comida, mas também por álcool, cigarro e outras substâncias.

Essas observações foram primeiramente anedóticas, vindas de usuários em redes sociais, mas despertaram grande interesse científico. De fato, estudos em animais já haviam mostrado que fármacos dessa classe, como exenatida e liraglutida, reduziam o consumo de nicotina, álcool, cocaína e a resposta a opioides.

Segundo Nora D. Volkow, diretora do NIDA (Instituto Nacional sobre Abuso de Drogas dos EUA), a evidência — embora inicial — é “extremamente empolgante”.

 

Das redes sociais à ciência

Motivados por esses relatos, pesquisadores realizaram uma revisão sistemática de postagens em redes sociais de pessoas que usavam semaglutida (Ozempic/Wegovy) ou tirzepatida (Mounjaro) — esta última também atua no receptor do hormônio GIP.

O estudo revelou uma redução consistente no desejo e consumo de álcool, e até cessação do tabagismo em alguns casos — um exemplo fascinante de como a observação pública pode anteceder a investigação científica.

 

Evidências clínicas crescentes

Estudos populacionais em larga escala, feitos retrospectivamente a partir de prontuários eletrônicos, reforçaram esses achados:

  • Semaglutida e risco de alcoolismo: pacientes com obesidade que usavam semaglutida apresentaram 56% menos risco de diagnóstico novo de Transtorno por Uso de Álcool (TUA) e 50% menos risco de recorrência.
  • Em diabéticos tipo 2, a semaglutida reduziu em 42% o risco de recorrência do TUA.
  • Pesquisas lideradas por Volkow mostraram ainda redução de até 78% no risco de overdose de opioides e 44% menor risco de desenvolver Transtorno por Uso de Cannabis.

Em 2025, um grande estudo sueco com 227 mil pessoas dependentes de álcool, publicado na JAMA Psychiatry, trouxe resultados impressionantes:

  • Semaglutida e liraglutida reduziram o risco de hospitalização por uso de álcool em 36% e 28%, respectivamente.
  • O efeito foi superior ao das medicações convencionais (dissulfiram, acamprosato, naltrexona).
  • Houve também redução do risco de hospitalizações por qualquer uso de substância (−32% e −22%) e por doenças físicas (−22% e −21%).
  • Além disso, não houve aumento nas tentativas de suicídio, ao contrário das drogas tradicionais, que elevaram esse risco em 15%.

 

O que dizem os ensaios clínicos

Apesar do entusiasmo, a evidência de alta qualidade em humanos ainda é limitada.

Uma revisão sistemática recente analisou 1.218 estudos e encontrou apenas 5 ensaios clínicos randomizados robustos, com 630 participantes no total — usando exenatida e dulaglutida.

Os resultados são mistos:

  • Exenatida (Yammine et al., 2021): 46,3% de abstinência ao tabaco vs. 26,8% com placebo.
  • Dulaglutida (Probst et al., 2023): redução média de 29% no consumo de álcool.
  • Exenatida (Angarita et al., 2021): sem efeito no uso de cocaína.
  • Dulaglutida (Lengsfeld et al., 2023): sem diferença significativa na cessação do tabagismo.

Um estudo dinamarquês (Klausen et al., 2022) trouxe um achado curioso: a exenatida reduziu o consumo de álcool apenas entre participantes obesos (IMC > 30). Isso levanta uma questão crucial:

Os agonistas de GLP-1 são eficazes apenas em pessoas com obesidade, ou seu efeito pode se estender a outros grupos?

 

Como eles atuam?

O GLP-1 é um hormônio intestinal que também atua no sistema nervoso central, em regiões envolvidas no apetite e saciedade — como o hipotálamo, o núcleo do trato solitário e a área postrema.

Surpreendentemente, ele também age em circuitos do prazer e motivação, como a área tegmental ventral e o núcleo accumbens — locais-chave no reforço dopaminérgico associado a álcool, nicotina e drogas.

Ao modular esses circuitos, os agonistas de GLP-1 reduzem o aumento da dopamina provocado por substâncias aditivas.

Há inclusive evidências genéticas de que variações no gene do receptor GLP-1 estão associadas a maior risco de abuso de álcool.

 

Conclusão

Os agonistas de GLP-1 representam uma nova e promissora fronteira no tratamento da dependência química e de comportamentos compulsivos.

Eles parecem atuar não apenas suprimindo o apetite, mas reconfigurando os circuitos cerebrais de recompensa — o mesmo sistema que sustenta o vício.

Entretanto, perguntas importantes permanecem:

  • Qual é a dose ideal para dependência?
  • É seguro o uso prolongado?
  • O efeito é restrito a certos grupos (como os obesos)?
  • Quais os riscos em pessoas com peso normal?

Mesmo com essas incertezas, já é possível afirmar que, para pacientes obesos com dependência de álcool ou nicotina, os agonistas de GLP-1 podem ser uma das estratégias mais promissoras e seguras disponíveis hoje.

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