O Diagnóstico Psiquiátrico para Além dos Sintomas

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Será que todo mundo que apresenta desatenção ou procrastinação tem TDAH? Toda  dificuldade social indica TEA? Sintomas depressivos sempre significam transtorno  depressivo? Ter instabilidade do humor e nas relações pessoais corresponde a  “bipolaridade” ou personalidade borderline? Sintomas de ansiedade ocorrem apenas nos  Transtornos de Ansiedade?

Desde o século XIX, grandes clínicos — como William Osler — já apontavam que  sinais e sintomas, isoladamente, são insuficientes para um diagnóstico médico  confiável. É preciso recorrer a outras fontes independentes de evidência. Alguns exemplos clássicos: dor no peito pode estar ou não relacionada a doença coronariana;  tosse e falta de ar podem indicar ou não pneumonia bacteriana; febre e icterícia podem  ou não sinalizar hepatite. Em todas essas situações, os exames laboratoriais ou de  imagem funcionam como padrão-ouro para confirmação diagnóstica. 

Na psiquiatria, entretanto, esse padrão-ouro ainda não existe. Os diagnósticos, conforme  os manuais DSM e CID, são definidos apenas a partir da descrição sintomática. Por  isso, torna-se indispensável adotar uma abordagem mais ampla, apoiada no conceito de  validadores diagnósticos

 

Os validadores diagnósticos 

Em um artigo clássico — pouco lembrado hoje, mas fundamental — Eli Robins e  Samuel Guze propuseram que, além dos sintomas, outros quatro critérios deveriam ser  considerados: 

  • Curso da doença 
  • Aspectos genéticos 
  • Resposta ao tratamento 
  • Exames laboratoriais ou biomarcadores 

 

  1. Curso da doença 

É o validador mais relevante. Emil Kraepelin, considerado o pai da psiquiatria moderna,  já afirmava: “diagnóstico é prognóstico”. Para tanto, é essencial investigar a trajetória  de vida do paciente: início dos sintomas, evolução do quadro (se crônico, episódico,  progressivo) e fatores associados a melhora e piora. 

  1. Aspectos genéticos 

Grande parte dos transtornos psiquiátricos possui forte componente hereditário.  Explorar a história familiar pode fornecer pistas valiosas para diferenciar quadros que,  apenas pelos sintomas, parecem semelhantes. A presença de transtornos confirmados  em membros da família (pais, irmãos, tios) pode fornecer pistas valiosas sobre a 

vulnerabilidade biológica do paciente a determinadas condições, ajudando a refinar ou reconsiderar um diagnóstico inicial. 

  1. Resposta ao tratamento 

A resposta (ou a falta dela) a uma intervenção terapêutica, especialmente  medicamentosa, pode ser um validador importante. Exemplos clássicos incluem: 

  • Pacientes com sintomas depressivos que respondem mal a antidepressivos, o que  pode sugerir um diagnóstico subjacente diferente, como o transtorno bipolar.
  • Indivíduos com queixas de desatenção que não se beneficiam de  psicoestimulantes, levantando a hipótese de que a causa dos sintomas não seja  TDAH. 

É crucial ter dois cuidados ao utilizar este validador: 

  • Tempo: A má resposta a um tratamento pode demorar algum tempo para se  tornar evidente. 
  • Especificidade: Alguns medicamentos podem ser eficazes em diferentes  transtornos psiquiátricos, o que exige uma análise cuidadosa 
  1. Testes laboratoriais e biomarcadores 

Embora seu uso ainda seja mais proeminente na pesquisa do que na prática clínica  diária, testes laboratoriais e biomarcadores podem ser decisivos em casos específicos.  Eles auxiliam na exclusão ou confirmação de condições médicas que podem mimetizar  transtornos psiquiátricos. Exemplos incluem: 

  • Alterações na tireoide (hipotireoidismo): Podem causar sintomas idênticos aos  de um transtorno depressivo. 
  • Ressonância magnética do cérebro: Pode revelar alterações vasculares  associadas à “depressão vascular”, que tem um curso e tratamento distintos da depressão maior. 

 

Exemplos práticos de aplicação 

A tabela abaixo ilustra como a aplicação dos múltiplos validadores pode alterar  drasticamente o diagnóstico e o plano de tratamento em comparação com uma avaliação  baseada apenas em sintomas.

Cenário  

Clínico

Diagnóstico  Baseado  

Apenas em  Sintomas  

(DSM/CID)

Análise com Múltiplos  Validadores Conclusão Diagnóstica e  Terapêutica
Caso 1:  

Episódio  

Depressivo

Depressão  

Maior

– Genética: Mãe com  diagnóstico confirmado de  transtorno bipolar. O diagnóstico deve ser  mantido em aberto. O uso de  antidepressivos deve ser  cauteloso devido ao alto risco 

 

– Curso da Doença: Início  precoce dos episódios (<  15 anos), múltiplos  

episódios com duração  curta (≤ 3 meses), um  padrão sugestivo de  

transtorno bipolar.

de se tratar de um quadro de  transtorno bipolar não  diagnosticado.
Caso 2:  

Desatenção e  Disfunção  Executiva

TDAH – Genética: História  

familiar de tios com  

esquizofrenia. Embora não  haja relação genética direta  com TDAH, parentes de  pacientes com  

esquizofrenia podem  apresentar déficits  

cognitivos semelhantes.

A causa dos sintomas pode  estar ligada à vulnerabilidade  familiar para esquizofrenia.  O uso de psicoestimulantes,  padrão para TDAH, poderia  ser danoso neste contexto.

 

Conclusão 

O diagnóstico psiquiátrico não deve se restringir a sintomas, como frequentemente  ocorre na prática clínica. Uma entrevista minuciosa, associada quando necessário a  exames complementares, é fundamental para análise de múltiplos validadores  diagnósticos. Esta abordagem abrangente é essencial para garantir precisão diagnóstica  e orientar o tratamento mais seguro e eficaz.

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