Os mecanismos do sono e da vigília — e como os medicamentos atuam
A compreensão científica sobre o sono começou a ganhar forma no início do século XX. Durante a epidemia de gripe espanhola em 1918, o neurologista Constantin Von Economo examinou cérebros de pessoas com encefalite letárgica, doença que causava sonolência extrema. Ele encontrou lesões na parte posterior do hipotálamo, identificando pela primeira vez uma região cerebral crucial para manter a vigília.
Algumas décadas depois, nos anos 1940, Horace Magoun e Giuseppe Moruzzi mostraram que estimular uma área específica do tronco encefálico de gatos sedados os fazia acordar. Essa região foi chamada de sistema ativador reticular, reforçando a ideia de que existem circuitos cerebrais que mantêm o estado de alerta.
Mais tarde, descobriu-se que outra área do hipotálamo — o núcleo ventrolateral pré-óptico — exerce efeito oposto, inibindo a atividade cerebral e promovendo o sono.
Assim, o ciclo sono-vigília é regulado por um equilíbrio entre centros ativadores e centros inibitórios do cérebro. Esse mecanismo é conhecido como modelo Flip-Flop:
- Quando dormimos, prevalece o sistema inibitório.
- Quando estamos acordados, domina o sistema ativador.
Os mensageiros químicos do sono e da vigília
- Sistemas ativadores: usam neurotransmissores como noradrenalina, serotonina, acetilcolina e histamina, cujo efeito é reforçado pela orexina.
- Sistemas inibitórios: dependem principalmente do GABA, favorecido pela melatonina (secretada à noite pela glândula pineal). Há também a adenosina, que se acumula no cérebro após longos períodos acordado.
Como agem os medicamentos
Indutores do sono
1. Potenciadores do GABA
- Benzodiazepínicos (ex.: clonazepam, alprazolam)
- Drogas Z (zolpidem, eszopiclona)
Induzem o sono, mas podem causar tolerância e dependência, sendo desaconselhados no uso prolongado.
2. Bloqueadores de neurotransmissores excitatórios
- Anti-histamínicos (ex.: doxepina em doses de 3 a 6mg)
- Bloqueadores adrenérgicos (ex.: prazosin)
- Alguns antidepressivos (trazodona, mirtazapina) e antipsicóticos (quetiapina) também têm efeito anti-histamínico, mas atuam de forma mais complexa por afetarem outros neurotransmissores.
3. Bloqueadores da orexina
- Suvorexante, daridorexante, lemborexante.
Ainda pouco acessíveis no Brasil, mas o lemborexante foi aprovado pela ANVISA em 2025.
4. Potencializadores da melatonina
- Suplementos de melatonina
- Fármacos como ralmeteona e agomelatina.
Importante: o sono não é apenas “desligar o cérebro”. Ele possui várias fases (leve, intermediário, profundo e REM), cada uma com padrões próprios de atividade cerebral. Muitos medicamentos alteram essa arquitetura do sono, podendo reduzir sua qualidade, mesmo que facilitem dormir. Por isso, o uso de fármacos na insônia deve ser criterioso.
Estimulantes da vigília
Em algumas condições, o objetivo é manter o cérebro acordado:
- Narcolepsia: marcada por deficiência de orexina, é tratada com estimulantes como metilfenidato, lisdexanfetamina ou modafinila.
- Sonolência leve (ex.: após uma noite mal dormida): pode ser combatida com o mais popular inibidor de adenosina, a cafeína. Afinal, quem nunca recorreu a um cafezinho para espantar o sono?
👉 Em resumo: o sono e a vigília resultam de uma delicada interação de neurotransmissores no cérebro. Os medicamentos agem justamente modulando essa interação — seja para reforçar o sono ou para estimular o estado de alerta.

