Seu psiquiatra é mais hipocrático ou mais galênico? Entenda a diferença dessas abordagens e como elas podem impactar o seu atendimento!

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Seu psiquiatra segue mais a Medicina Galênica ou a Medicina Hipocrática? E o que isso significa para sua saúde mental?

Galeno e Hipócrates foram os dois médicos mais importantes da antiguidade. Suas abordagens na medicina, muito diferentes entre si, ainda influenciam a psiquiatria moderna e seus tratamentos nos dias de hoje. 

 

Medicina hipocrática X medicina galênica

A medicina hipocrática se guia sobretudo pela observação cuidadosa do paciente como um todo — corpo, mente, ambiente e estilo de vida. Valoriza experiência clínica direta e coleta sistemática de dados. No século 20, esta observação clínica passou a ser subsidiada por dados clínicos de estudos controlados e com muitos pacientes, feitos para saber se há evidências que tal tratamento funciona ou não. Mas sempre, a fonte de informação é o dado clínico.

Já a medicina Galênica é mais dogmática e tende a submeter a prática clínica a ideias teóricas, mesmo sem comprovação prática. Muitas vezes ela indica tratamentos baseados unicamente em dedução lógica a partir de teorias ou dados pré-clínicos ou de laboratório.

Na medicina em geral, a abordagem Galênica predominou desde o século 5 até o século 19, quando a abordagem hipocrática passou a ser preponderante. Na psiquiatria, ao contrário, a abordagem galênica continua muito influente.

A psiquiatria atual, de fato, tem adotado frequentemente modelos biomédicos excessivamente técnicos ou reducionistas, afastando-se da tradição hipocrática.

 

Uso de curcumina e ômega-3 para depressão

Para entender bem isso, vamos ver alguns exemplos práticos. 

Pela medicina galênica o uso de curcumina para depressão se justificaria por estudos em laboratório que mostram que a curcumina tem efeitos antioxidantes e modulação de fatores neurotróficos e, pelas teorias dos mecanismos biológicas da depressão, estes efeitos seriam positivos e daria a curcumina um “potencial terapêutico”. Porém, não há estudos clínicos consistentes que comprovem este efeito em pacientes deprimidos.

Outro exemplo seria o uso ômega-3, também na depressão. Ele tem efeitos anti-inflamatórios e atua nas membranas neuronais o que, teoricamente, justificaria seu uso. No caso do ômega-3, porém, já existem vários estudos clínicos de boa qualidade que avaliaram seu efeito na depressão. Os resultados foram positivos, o efeito moderado. Então, aqui, sua prescrição estaria indicada pela abordagem hipocrática, mas com cautela e observando a resposta do paciente para confirmar se seu uso vale a pena.

Nesse ponto, pode-se perguntar: então o médico só deve prescrever algo que tenha evidências clínicas robustas? Esta é uma questão delicada. Quem se dedica à prática clínica sabe que muitas vezes se depara com pacientes que já tentaram todos os tratamentos que têm boas evidências, mas ainda não conseguiram uma resposta satisfatória. E, ao buscar por alternativas, o profissional se depara com artigos que dizem: “faltam mais estudos para comprovar a eficácia de tal substância”. Nessa situação podemos lembrar que “falta de evidência efeito” não quer dizer “evidência de falta de efeito”.

Baseado nisso, eu acredito que em situações específicas podemos, sim, adotar uma abordagem Galênica, ou seja, prescrever baseado em plausibilidade biológica ou dedução lógica a partir de dados de laboratórios. Mas, para isso, é fundamental observar três regras:

 

  1. Não há risco significativo de efeitos adversos com o uso da medicação;
  2. É necessário explicar ao paciente a limitação dessa prescrição e deixar isso claro frente ao custo financeiro envolvido;
  3. Acompanhar de perto a resposta do paciente, interrompendo o tratamento em caso de resposta insatisfatória. 

 

Há inúmeros outros exemplos passando por outros suplementos, derivados da cannabis, drogas psicodélicas, ibogaína etc. Muitos deles com forte apelo entre os pacientes e na internet. E tudo isso movimenta muito dinheiro, o que pode motivar o uso abusivo e indevido da abordagem Galênica. 

 

Em resumo

Aspecto Abordagem Galênica Abordagem Hipocrática
Base para intervenção Teórica Empírica, baseada na observação
Papel da evidência pré-clínica Aceita como suficiente Insuficiente sem confirmação clínica
Foco Plausibilidade biológica e lógica dedutiva Resposta individual e prognóstico
Exemplo contemporâneo Prescrever suplemento com base em teoria Esperar evidência clínica em humanos

E aí? Consegue avaliar melhor agora como os psiquiatras que você conhece usam as abordagens hipocrática e galênica? 

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