Uma pensa:
“Vai ser difícil, mas vou encontrar uma forma de lidar.”
A outra:
“Se der errado, não haverá nada que eu possa fazer.”
A ameaça pode ser a mesma. A incerteza também. Mas a intensidade da ansiedade pode ser muito diferente.
Para além de diferenças genéticas e biológicas, um fator central nessa diferença é a percepção de controle: a crença de que nossas ações podem influenciar o que acontece ou de que seremos capazes de responder ao que vier.
Mas há um detalhe importante:
Controle percebido não é a mesma coisa que controle real.
Estudos experimentais mostram que a percepção subjetiva de controle pode prever desamparo e sofrimento emocional para além da situação objetiva.
Em um estudo publicado em 2025, voluntários foram expostos a estímulos desagradáveis, como choques elétricos e ruídos intensos. Alguns podiam realmente interromper esses estímulos; outros não tinham qualquer controle sobre sua duração. O resultado mais interessante foi que o impacto emocional não dependia apenas do controle objetivo, mas principalmente de como cada pessoa percebia a situação.
Os participantes que mantiveram uma sensação de controle apresentaram menos desamparo e menos sintomas depressivos, mesmo quando, na prática, não tinham controle algum sobre os estímulos. Em contraste, aqueles com baixa percepção de controle sofreram maior impacto emocional, independentemente da realidade objetiva.
Um segundo estudo, publicado em 2026, reforçou essa conclusão ao combinar avaliações psicológicas, dosagem de cortisol e ressonância magnética funcional. Pessoas com maior percepção de controle apresentaram menos desamparo, menor sofrimento diante do estresse, menos sintomas psicossomáticos e um funcionamento cerebral mais adaptativo.
Um achado especialmente interessante foi que indivíduos mais resilientes não produziram menos cortisol. Na verdade, apresentaram uma resposta hormonal mais intensa e organizada ao estresse, sugerindo que resiliência não significa ausência de reação, mas sim a capacidade de mobilizar recursos de forma eficiente e retornar ao equilíbrio depois.
Mas esses estudos também trazem um alerta importante: não basta dizer a alguém que ela é capaz. No experimento de 2025, uma intervenção breve para aumentar a autoeficácia — baseada em feedback positivo e na lembrança de experiências anteriores de sucesso — não foi suficiente para reduzir as respostas ao estresse. Isso sugere que crenças profundas sobre controle não se transformam com frases motivacionais, “pensamento positivo” ou soluções rápidas.
A percepção de controle parece ser construída por meio de experiências repetidas em que a pessoa aprende, na prática, que suas ações fazem diferença. É a vivência de que agir pode produzir mudanças, de que é possível tolerar a ansiedade sem desistir, de que os erros podem ser corrigidos e de que, mesmo quando não controlamos os acontecimentos, podemos escolher como responder a eles.
Essa é, provavelmente, uma das bases da resiliência. Afinal, muitas vezes não é apenas a adversidade que determina o sofrimento psicológico, mas a maneira como percebemos nossa capacidade de enfrentá-la. Fortalecer essa percepção de controle — por meio de experiências reais e não apenas de palavras — pode ser um dos caminhos mais eficazes para proteger a saúde mental.
Talvez, por isso, a ansiedade possa ser entendida pela combinação de:
INCERTEZA + BAIXO CONTROLE PERCEBIDO
A incerteza pergunta:
“O que vai acontecer?”
A baixa percepção de controle acrescenta
“E, se acontecer, haverá algo que eu possa fazer?”
Isso ajuda a explicar por que uma pessoa pode enfrentar um problema grave com ansiedade moderada, enquanto outra experimenta ansiedade intensa diante de um problema menor.
A diferença pode estar na sensação da capacidade de agir.
Mas aumentar o controle percebido não significa acreditar que podemos controlar tudo. A busca por controle absoluto ou por controle do que não pode ser controlado pode, ela própria, alimentar a ansiedade.
O pensamento mais adaptativo não é:
❌ “Eu consigo controlar qualquer ameaça.”
Mas:
✅ “Mesmo que eu não controle tudo, posso agir sobre alguns aspectos e responder ao que vier.”
Não precisamos controlar todas as ameaças para reduzir a ansiedade. Mas precisamos perceber onde e como nossas ações têm impacto sobre elas.
Bibliografia
Meier J, Meine LE, Schüler K, Wessa M. Distinct trajectories of perceived control over aversive stimulation predict affective reactions to stressors over and above objective control. Sci Rep. 2025 Oct 7;15(1):35009. doi: 10.1038/s41598-025-19958-9.
Meier J, Kollmann B, Meine LE, Meyer B, Yuen K, Stork M, Tüscher O, Wessa M. Perceived control as a resilience factor: associations with neural, physiological and affective stress responses and mental health. Transl Psychiatry. 2026 Jan 15;16(1):39. doi: 10.1038/s41398-025-03786-6. \

