Mas será que eles realmente tornam uma pessoa saudável cognitivamente melhor?
Por que pessoas sem TDAH usam essas medicações?
Existem pelo menos dois cenários relativamente comuns.
-
Erro ou imprecisão diagnóstica
O diagnóstico de TDAH nem sempre é simples. Sintomas como desatenção, dificuldade de concentração, procrastinação e impulsividade também podem ocorrer em outros transtornos, em situações de estresse ou privação de sono e até dentro da variabilidade normal.
Assim, em alguns casos, estimulantes podem acabar sendo prescritos para pessoas que, na realidade, não apresentam TDAH.
-
Uso para “melhora de desempenho”
Outro fenômeno é o uso intencional dessas substâncias por indivíduos saudáveis como potencializadores cognitivos (cognitive enhancers).
Isso ocorre especialmente entre estudantes e profissionais que procuram aumentar a concentração, estudar ou trabalhar por mais horas, reduzir a fadiga ou a necessidade de sono. O problema é que a expectativa de benefício costuma ser maior do que aquilo que as pesquisas demonstram.
Mas eles realmente melhoram a cognição?
Um pouco, em algumas pessoas e em algumas funções — mas muito menos do que se costuma imaginar.
Em pessoas com TDAH, os estimulantes podem produzir melhora importante da atenção, do controle inibitório e de outras funções executivas prejudicadas pelo transtorno.
Em pessoas saudáveis, porém, os resultados são mais modestos e inconsistentes. O metilfenidato pode melhorar o desempenho em determinadas tarefas novas, mas não necessariamente em habilidades já bem estabelecidas. O modafinil pode produzir algum benefício em planejamento e memória visual, além de aumentar a vigília.
Portanto, não há evidência de uma melhora global da inteligência ou da capacidade cognitiva. Os possíveis ganhos são específicos e variam conforme a tarefa e o indivíduo.
Quem já funciona bem pode se beneficiar menos
Um aspecto interessante é que o efeito parece depender do desempenho cognitivo de partida. Pessoas com desempenho basal mais baixo podem apresentar algum benefício, enquanto aquelas que já apresentam alto desempenho podem ter pouco ou nenhum ganho — e, em algumas situações, até piorar.
Isso é compatível com a conhecida curva em U invertido: para algumas funções cerebrais, níveis muito baixos de dopamina e noradrenalina prejudicam o desempenho, mas níveis excessivos também podem fazê-lo.
Ou seja, mais estimulação não significa necessariamente melhor funcionamento cerebral.
Então por que tantas pessoas dizem que “funciona”?
Porque essas substâncias não atuam apenas sobre a cognição. Elas também podem:
- aumentar o estado de alerta e a vigília;
- elevar a motivação e a disposição;
- reduzir a sensação de fadiga;
- permitir permanecer por mais tempo em uma tarefa;
- produzir sensação subjetiva de energia e produtividade.
Uma pessoa pode, por exemplo, conseguir estudar durante seis horas em vez de quatro. Isso não significa necessariamente que sua memória, raciocínio ou capacidade de aprendizagem tenham melhorado na mesma proporção.
Essa diferença entre sentir-se cognitivamente melhor e realmente apresentar melhor desempenho cognitivo é fundamental.
E os riscos?
Se os benefícios em indivíduos saudáveis são relativamente pequenos, os efeitos adversos continuam presentes. Entre eles estão:
- ansiedade e irritabilidade;
- insônia;
- redução do apetite;
- aumento da frequência cardíaca e da pressão arterial;
- agitação;
- tolerância e risco de uso problemático ou dependência.
É necessária cautela especial em pessoas com transtorno bipolar, histórico de psicose ou predisposição a esses quadros. Nessas situações, estimulantes podem, particularmente quando utilizados inadequadamente ou em doses elevadas, desencadear ou agravar mania, agitação, paranoia ou sintomas psicóticos.
Em resumo
Psicoestimulantes são medicamentos muito úteis quando bem indicados, como no tratamento do TDAH. Em pessoas sem o transtorno, porém, a ideia de que funcionariam como verdadeiras “pílulas da inteligência” não é sustentada pelas evidências.
Eles podem aumentar vigília, disposição, motivação e capacidade de permanecer por mais tempo em uma tarefa. Podem também melhorar algumas funções cognitivas específicas em determinadas pessoas. Mas os benefícios objetivos tendem a ser modestos, variáveis e menores em quem já apresenta bom desempenho cognitivo.
Enquanto isso, riscos como ansiedade, insônia, efeitos cardiovasculares e dependência continuam presentes.
Sentir-se mais alerta ou produtivo não é necessariamente o mesmo que pensar melhor.
Por isso, essas medicações não devem ser encaradas como atalhos para aumentar a inteligência ou o desempenho, e seu uso deve ocorrer com indicação médica criteriosa e acompanhamento adequado.
Referências:
Schifano F, Catalani V, Sharif S, Napoletano F, Corkery JM, Arillotta D, Fergus S, Vento A, Guirguis A. Benefits and Harms of ‘Smart Drugs’ (Nootropics) in Healthy Individuals. Drugs. 2022;82(6):633-647. doi: 10.1007/s40265-022-01701-7.
Schifano F, Bonaccorso S, Arillotta D, Corkery JM, Floresta G, Papanti Pelletier GD, Guirguis A. Focus on Cognitive Enhancement: A Narrative Overview of Nootropics and “Smart Drug” Use and Misuse. Biology (Basel). 2025;14(9):1244. doi: 10.3390/biology14091244.

