Clube dos 27: a combinação entre vulnerabilidade e um ambiente de alto risco

Jimi Hendrix, Janis Joplin, Jim Morrison, Brian Jones e, décadas depois, Amy Winehouse morreram aos 27 anos e esta coincidência deu origem ao chamado “Clube dos 27”.

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É provável que não exista nada de especial nos 27 anos, poderia ser 26, 28, 29 ou outra idade próxima. Mas a coincidência chama a atenção para o fato que jovens artistas extremamente famosos podem constituir um grupo particularmente vulnerável.

 

A combinação entre vulnerabilidade e um ambiente de alto risco

Os cinco alcançaram fama muito jovens e viveram em ambientes nos quais álcool e outras drogas estavam amplamente disponíveis. Hendrix e Joplin morreram por intoxicações relacionadas a drogas; Morrison morreu em circunstâncias menos esclarecidas, mas tinha histórico importante de uso de álcool e drogas; Brian Jones apresentava grave abuso de substâncias antes de morrer afogado; e Winehouse desenvolveu dependência de álcool e outras drogas. Isso sugere a convergência de vulnerabilidades individuais com um ambiente extraordinariamente permissivo e perigoso.

A fama precoce pode intensificar esse processo. Um jovem artista passa, em poucos anos, de relativo anonimato para uma situação em que dispõe de dinheiro, drogas, admiradores e enorme liberdade, enquanto diminui dramaticamente o número de pessoas capazes de lhe impor limites.

 

A própria personalidade que favorece a criação pode aumentar alguns riscos?

Alguns traços associados à criatividade artística — busca por novidades, abertura à experiência, intensidade emocional e menor convencionalidade — podem, em determinados indivíduos, coexistir com maior experimentação com drogas e comportamentos de risco.

Isso não significa que criatividade seja uma doença nem que artistas sejam necessariamente psicologicamente instáveis. A associação é muito mais complexa. Mas determinadas características podem ser vantajosas para romper convenções artísticas e, simultaneamente, aumentar a exposição a ambientes e comportamentos perigosos.

 

Sucesso não necessariamente protege a saúde mental

Existe uma intuição de que alcançar fama, reconhecimento e riqueza deveria produzir bem-estar. Mas o sucesso extremo também pode introduzir estressores incomuns.

Turnês, privação de sono, pressão para produzir, perda de privacidade, relações pessoais instáveis e exposição constante ao julgamento público podem contribuir para ansiedade, depressão e abuso de substâncias.

Além disso, drogas podem adquirir uma função psicológica: estimulantes para sustentar apresentações e noites sem dormir; álcool e sedativos para diminuir ansiedade e conseguir dormir; opioides ou outras substâncias para aliviar sofrimento emocional.

Forma-se então um círculo potencialmente perigoso:

estresse → uso de substâncias → alívio temporário → tolerância e dependência → deterioração psicológica e física → mais sofrimento → mais uso.

 

E havia sofrimento psíquico importante

Nos cinco casos existem relatos de dificuldades psicológicas ou comportamentais relevantes, embora seja inadequado estabelecer retrospectivamente diagnósticos que nunca foram formalmente realizados.

Amy Winehouse talvez seja o exemplo mais bem documentado: apresentava bulimia, depressão e graves transtornos relacionados ao uso de substâncias. Alguns autores sugerem transtorno de personalidade borderline. Janis Joplin também apresentava importante abuso de drogas e álcool, além de relatos de insegurança, solidão e sofrimento emocional. Brian Jones sofreu deterioração comportamental e funcional progressiva associada ao consumo de drogas e álcool.

Nos casos de Hendrix e Morrison, existem numerosos relatos de uso problemático de substâncias e períodos de sofrimento psicológico, mas é preciso ser particularmente cauteloso ao transformar descrições biográficas em diagnósticos psiquiátricos.

 

O paradoxo da fama: muitas pessoas ao redor, poucos capazes de dizer “não”

Uma pessoa comum que começa a apresentar dependência grave pode perder emprego, dinheiro e relacionamentos — consequências que, embora dolorosas, às vezes precipitam uma procura por tratamento. Uma estrela mundial dispõe de mecanismos capazes de retardar essas consequências. Há dinheiro para continuar usando drogas. Compromissos podem ser cancelados. Outras pessoas resolvem problemas. E existe uma equipe cuja renda pode depender da continuidade da carreira do artista.

Surge, assim, um fenômeno próximo ao que hoje chamamos de enabling: pessoas ao redor, muitas vezes com boas intenções, acabam protegendo o indivíduo das consequências de seu comportamento e permitindo involuntariamente sua continuidade.

Nesse sentido, o Clube dos 27 provavelmente não revela uma idade misteriosamente perigosa. Ele simboliza algo muito mais real: o encontro entre vulnerabilidade psicológica, uso de substâncias, fama precoce, disponibilidade quase ilimitada de drogas, ambientes permissivos e uma cultura que, durante muito tempo, romantizou a autodestruição como parte do próprio espírito do rock.

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