O medicamento inaugura no país uma nova classe de fármacos para o tratamento da insônia, com um mecanismo de ação diferente daquele dos benzodiazepínicos e do zolpidem.
O tratamento medicamentoso da insônia geralmente envolve substâncias que ou aumentam a neurotransmissão inibitória do sistema nervoso ou que reduzem a atividade dos sistemas responsáveis por manter o cérebro desperto. Essas estratégias, contudo, não são isentas de limitações.
Os medicamentos que potencializam a neurotransmissão inibitória, como os benzodiazepínicos — por exemplo, clonazepam e alprazolam — e as chamadas drogas Z, como o zolpidem, podem ser eficazes, mas apresentam risco de tolerância e dependência. A tolerância corresponde à perda progressiva do efeito, que pode levar à necessidade de doses cada vez maiores para obter o mesmo resultado.
Outros medicamentos empregados no tratamento da insônia bloqueiam mecanismos excitatórios. É o caso de alguns anti-histamínicos, que podem provocar aumento do apetite e ganho de peso. Já opções como a melatonina, a ramelteona e os canabinoides tendem a apresentar eficácia mais limitada, especialmente nos casos de insônia persistente.
Nesse contexto, a aprovação do lemborexanto pela Anvisa representa uma boa notícia para os pacientes brasileiros. Embora o medicamento já seja utilizado há alguns anos em outros países, somente agora surge a perspectiva de sua disponibilização no Brasil.
O lemborexanto, comercializado com o nome Dayvigo®, pertence à classe dos antagonistas duais dos receptores de orexina, conhecidos pela sigla DORA, derivada da expressão inglesa Dual Orexin Receptor Antagonist.
A orexina é um neuropeptídeo produzido no hipotálamo que desempenha papel fundamental na manutenção do estado de vigília. Em vez de aumentar diretamente os mecanismos cerebrais que induzem o sono, como fazem os benzodiazepínicos e o zolpidem, o lemborexanto reduz a atividade do sistema responsável por manter o cérebro desperto.
Ao bloquear os receptores 1 e 2 da orexina, o medicamento diminui a tendência de permanecer acordado, facilitando tanto o início quanto a manutenção do sono. Essa forma de ação é frequentemente descrita como a retirada de um “sinal de vigília”, em vez da indução de uma inibição generalizada do sistema nervoso central.
Nos estudos clínicos, o lemborexanto demonstrou eficácia na redução do tempo necessário para adormecer, na diminuição dos despertares noturnos e no aumento do tempo total de sono. Apresentou também, de modo geral, um bom perfil de tolerabilidade.
As reações adversas mais frequentes, observadas em menos de 10% dos pacientes, foram sonolência, cefaleia e fadiga. Além disso, estudos não clínicos não encontraram evidências de desenvolvimento de tolerância ou de dependência física.
Isso não significa, entretanto, que o medicamento seja totalmente isento de riscos. A sonolência pode persistir no dia seguinte, principalmente quando o paciente não dispõe de tempo suficiente para dormir ou utiliza o medicamento juntamente com álcool ou outras substâncias sedativas. Por isso, o lemborexanto deve ser utilizado sob orientação médica.
O Dayvigo® recebeu registro da Anvisa em 7 de abril de 2025, em nome da Eisai Laboratórios Ltda., para o tratamento da insônia em adultos com dificuldade para iniciar ou manter o sono.
Apesar da aprovação regulatória, o medicamento ainda não está disponível nas farmácias brasileiras. Em abril de 2026, a empresa informou que ainda não havia uma data definida para o lançamento e mencionou a precificação pela Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos, a CMED, como uma das etapas pendentes. A expectativa é que o Dayvigo® chegue ao varejo brasileiro durante o segundo semestre de 2026.
O lemborexanto não é o único representante dessa nova classe de medicamentos. Outro antagonista dos receptores da orexina que deve ser aprovado em breve no Brasil é o daridorexanto (QUVIVIQ®), já disponível nos Estados Unidos e na Europa e submetido à Anvisa pela EMS em 2025. A classe conta ainda com o suvorexanto (BELSOMRA®), o primeiro antagonista da orexina aprovado, lançado nos Estados Unidos em 2014, e com o vornorexanto (VORZZZ®), aprovado no Japão em 2025.

